Santa Teresa de Lisieux
e São José Moscati

Giuseppe Samà s.j.

Tradução por Alberto Penna Rodrigues

Santa Teresa de Lisieux (1873-1897)

Nos nossos dias nós temos uma grande necessidade de santos e devemos implorar sem parar pela intercessão deles junto ao Bom Deus" (João PauloII). Esta messagem do nosso Santo Padre nos vinha frequentemente à mente, quando em Junho de 96 o trem nos levava à França.

Éramos um pequeno grupo de religiosos e leigos, em peregrinação a Lisieux, devotos de Teresa e desejosos de aprofundar seu caminho da "infância espiritual". Lisieux é uma pequena cidade da Normandia, longe dos centros comerciais; um oásis de paz e de silêncio, ideal para a prática de retiros espirituais, com momentos de reflexões e de reza, cuja necessidade urge hoje me dia, haja vista a hiper-atividade dominante.

Da basílica à igreja do Carmo e à capela da "Ermita Santa Teresa", onde tivemos nossos encontros e nossa adoração Eucarística, pudemos experimentar e assimilar o itinerário da santidade de Teresa através das diferentes etapas de seu crescimento interior, nas provações de um Gethsemani escondido que ela vivenciou com uma rara generosidade.

Na escola de Santa Teresa, que Pio XI definiu como "Palavra de Deus", pudemos descobrir de novo o charme do espírito da criança: "Se vocês não voltarem como crianças, não entrarão no Reino dos Céus" (Mt 18,3).

Tornar-se "pequeno" para ser "grande" no Reino dos Céus: "Nada de pueril ou afetado - como dizia Paulo VI - neste caminho de Teresa. É o caminho da confiança e o abandono em Deus", ou - como escreveu a própria Teresa - "é dormir nos braços de Deus, nosso pai", que vela com um amor paterno sobre nós, e nós realmente o somos, filhos de Deus (1 Gv 3,1).

É um caminho que, contrariamente ao que se poderia acreditar, exige uma fé corajosa, um amor sem limites e uma colaboração perseverante com Nosso Senhor Jesus Cristo ao qual nós devemos "jogar as flores de nossos pequenos sacrifícios".

É um caminho seguro, levá-nos à santidade, pois o Senhor quer que sejamos santos, melhores. Ele próprio é nossa santidade, como diz Teresa no seu "Ato de oferenda ao Amor misericordioso": "Desejo ser santa e vos peço, ó meu Deus, que sejais a minha santidade". Teresa pede a Deus que seja Ele que ame em ela, porque é com o amor de Deus que devemos amar.

O Amor de Deus, levado até ao heroísmo, inspira nossa santa – quinze meses após o "Ato de Oferenda" - que Laurentin definiu como sendo seu "cartaz" vibrante pelos seus toques místicos, escrito como uma carta à sua irmã Maria (Manuscrito B,nn.250-254).

Foi procurando sua vocação que Teresa descobriu em si mesma desejos contraditórios cuja ambição ultrapassava o razoável, pois ela desejava todas as vocações. Parecia que o Carmo não bastava mais a seu coração atormentado por estes desejos insensatos que ela própria chama de "loucuras".

Ela gostaria de ser profeta, médica, apóstola e missionária, percorrer a terra e plantar a Cruz no solo infiel....mártir. "Ó meu Jesus! o que você vai responder a todas as minhas loucuras?"

A igreja do Carmo em Lisieux

O Senhor responde à Teresa através de São Paulo (1 Cor 12-13) que lhe faz compreender que a Igreja é um organismo vivo, com menbros que tem cada um funções diferentes e complementárias ao mesmo tempo e acrescenta que existe um caminho excelente sem o qual os dons mais perfeitos não são nada: o Amor ("agàpe")

Teresa exulta de alegria e exclama: "Finalmente encontrei a minha vocação, minha vocação é o amor, no coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor... assim serei tudo... assim meu sonho será realizado!!"

É o motivo pelo qual Pio XI a proclama - em 1927 - Padroeira das Missões universais, em pé de igualdade com o maior missionário dos tempos modernos: o jesuíta São Francisco Xavier.

Mas na capela da Ermita não podíamos deixar de fazer comparações entre a pequena carmelita Santa Teresa do Menino Jesus e nosso Santo de Nápoles, São José Moscati, Médico, clínico ilustre, sábio e professor universitário falecido em 1927, com 47 anos.

Pela correspondência do nosso santo, sabemos que ele foi muito devoto de Santa Teresa de Lisieux, de quem ele mantinha um retrato em seu quarto o qual conservamos ainda nas "Salas Moscati" da igreja do Gesù Nuovo em Nápoles, com o título de Bem Aventurada, pois este retrato foi comprado logo após a Beatificação (Roma, 29 de Abril de 1923).

São José Moscati (1880-1927)

No dia 18 de Julho de 1923, pouco dias portanto após a beatificação de Teresa, Moscati fala de sinais de falta de coragem que ele conseguiu superar precisamente depois da leitura de "História de Uma Alma", no que diz respeito a isto ele escreve:

"Há apenas alguns dias, eu lia na autobiografia da bem aventurada Teresa, uma frase feita para mim,: "Meu Deus, a própria falta de coragem é um pecado!" Sim, é um pecado que vem do orgulho, porque ele me faz acreditar que eu tenha podido aceitar a opinião de mim mesmo de ter feito grandes coisas! Quando ao contrário nós somos servos inúteis."

Algumas de suas cartas, escritas em Edimburgo em 1923, mencionam a Bem Aventurada carmelita. Na carta de 24 de Julho de 1923, à sua irmã Nina, Moscati lhe informa que visitou a casa dos Jesuítas em Lauriston Place e precisa: "Entrei e achei exposta a imagem da bem aventurada Teresa do Menino Jesus".

Em uma outra carta, ainda de Julho de 1923, ele escreve à sua irmã: "Prometi à Miss Nasmyth de lhe enviar o texto francês da Bem Aventurada Teresa. Melhor ainda, Nina, você mesma poderia enviá-la em meu nome". Isto porque Moscati se sentia grato por tantas atenções que lhe foram prestadas.

De volta de Edimburgo, noso Santo pára em Paris de onde ele escreve a seus parentes: "Aqui, a edição já estando esgotada, não pude encontrar a vida da Bem Aventurada Teresa, etc."

Um outro fato testemunha como a espiritualidade de Santa Teresa pôde influenciar a alma de José Moscati, é uma carta que o Santo escreveu no dia 7 de Março de 1924. Ele ia a Lecce quase todos os meses e aqui, tendo conhecido a filha do Notário De Magistris, ele a estimulou à devoção pela Bem Aventurada Teresa.

Ao saber depois da morte precoce desta jovem, Moscati escreveu ao pai dela estas palavras emocionantes:

"Tenho aqui sobre a minha mesa, entre as primeiras flores da primavera, o retrato da filha do senhor e fico um instante meditando, enquanto que lhe escrevo, sobre a temporariedade das coisas humanas.
A beleza, todo encanto da vida passa...
O único a permanecer eterno, é o amor, razão de toda boa ação, que è esperança e religião, que sobrevive a nós, pois o amor é Deus.
Mesmo o amor daqui de baixo, o Diabo tentou infectá-lo, mas Deus o purificou por meio da morte. Morte grandiosa que não é um fim, mas o começo do sublime e do divino, perto do qual estas flores e a beleza não são nada!
O seu anjo, levado na juventude, como a cara amiga dela, entitulada recemente Bem Aventurada Teresa, assiste ao senhor e à mãe dela do Céu!"

A basílica Santa Teresa em Lisieux

Estas citações nos levam a pensar que São José Moscati tirava da devoção à Teresa de Lisieux, força e consolo para viver sua vida interior impregnada de uma profunada união com Deus e de participações Eucarísticas.

As longas entrevistas que ele mantinha todas as manhãs com o Senhor na igreja do "Jesus Novo" em Nápoles ou na igreja de Santa Clara eram o eixo de seus dias cheios de trabalho junto aos doentes que ele amava servir como se fossem para ele "a figura do Cristo".

Era pelo Espírito de Jesus Eucarístico que Moscati exercia sua profissão como "um sacerdócio dos corpos e das almas". É assim que ele se exprimirá em uma carta de 1926: "Felizes, nós os médicos, que frequentemente somos incapazes de afastar uma doença, felizes seremos se nos lembrarmos que além do corpo temos diante de nós almas imortais, divinas, às quais temos o dever urgente de amá-las como a nós mesmos, de acordo com o evangelho".

São José Moscati nos deixou textos com os quais podemos reconstruir a história de sua relação íntima com o Senhor. Após a sua morte, encontramos um bilhete que nos faz compreender até que ponto ele amava nosso Senhor. Um eco fiel de "o amor até a loucura" de Santa Teresa de Lisieux.

Lemos neste bilhete de 5 de Junho de 1922: "Meu Jesus Amor, seu amor me torna sublime; seu amor me santifica, ele faz com que eu me dirija não somente a uma única criatura, mas a todas as criaturas, até à beleza infinita de todos os seres criados à sua imagem e semelhança".

Temos a impressão de ouvir ainda a voz inspirada de Santa Teresa do Menino Jesus, "a Santa do Amor", quando lemos este outro pensamento de São José Moscati: "Exercitemo-nos todos os dias na Caridade. Não esqueçamos de fazer todos os dias, em cada instante, a oferenda de nossas ações, realizando tudo por amor".

Emanava de nosso Santo, um tal ardor evangélico que se transformará em uma germinação silenciosa que Paulo VI definiu "i fioretti" (florzinhas) do Professor Moscati.

Muitas vezes entre seus doentes, alguém encontrava sob o travesseiro uma nota elevada de dinheiro e em numerosos casos ele chegava mesmo a pagar os remédios.

Para São José Moscati, o Evangelho da Caridade, diariamente testemunhado, é inseparável do Amor e do seviço à Verdade.

São José Moscati – manuscrito

Para São José Moscati, Caridade, Amor e Verdade são inseparáveis, como vemos em um texto seu de 17 de Outubro de 1922:

"Ame a Verdade, mostre-se tal como é sem fingimento e sem medo, sem nenhuma reserva. E se a verdade te custar a perseguição, aceite-a, se te custar o tormento, suporte-o. E se pela Verdade for necessário fazer o sacrifício de si mesmo e de sua vida, seja forte no sacrifício".

Podemos dizer que São José Moscati, em um ambiente, na sua época, cheio de positivismo e de anticlericalismo, procurou sempre o combate pela Verdade. A procura da Verdade, que torna os cristãos livres e vitoriosos sobre a mentalidade do mundo.

Teresa repetia durante sua doença: "Eu só me morro de Verdade". E ainda no dia 30 de Setembro de 1897, algumas horas antes de sua morte: "Sim, me parece que sempre procurei somente a Verdade; sim, compreendi a humildade do coração...".

Esta humildade - nos observa von Balthasar - se encontra em um fio de navalha na beira do abismo entre a verdade e a mentira. A humildade não é uma virtude, mas a convicção de não tê-la, pois tudo vem de Deus.


Bibliografia:
Alfredo Marranzini s.j.: Giuseppe Moscati, modello del laico cristiano di oggi. Roma 1987.
Antonio Tripodoro s.j.: Giuseppe Moscati, il Medico Santo di Napoli. Napoli 1993.


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