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Edith Stein: [Tradução de Clemente Treccani c.r.i.c.] |
A intensa relação com a mãe Augusta, fiel observante da fé hebraica, nos ajuda a compreender a convicção de Edith a respeito da não incompatibilidade entre fé cristã e a fé hebraica. Edith acompanha a mãe na sinagoga pela ultima vez, na festa dos Tabernáculos (ela está entrando no Carmelo), e na volta para casa, a mãe pergunta: "Não foi bonito o sermão?" – "Sim". "Também na fé hebraica podemos ser religiosos, não acha?" – "Claro, quando não se conheceu outra coisa". Então a mãe, desconsolada, pergunta novamente: "E você, porque o conheceu? Não quero dizer nada contra ele, sem dúvida será um homem muito bom, mas por que se fez Deus?"
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usado pela mãe de Edith |
Mãe e filha sofrem terrivelmente, tanto que Edith escreve: "Tive que dar o passo sozinha e totalmente imergida na noite da fé. Muitas vezes, no decorrer daquelas semanas, me perguntava quem entre nós duas, mamãe ou eu, teria tido problemas de saúde. Mas ficamos firmes em nossas posições até o último dia".
Porém Edith, tinha muita admiração pela fé da mãe, não somente por puro instinto de afeto filial, mas pela enraizada convicção que Deus opera além dos confins da Igreja; ele opera também nas outras religiões.
Algumas cartas escritas em 1936, 1938 e 1939 lembram a morte da mãe: "Deus a levou com ele rapidamente"; "Hoje [a mãe] celebra seu 87º aniversário com nossa querida Santa Teresa". Teresa de Lisieux: de fato era o dia 3 de outubro de 1936, dia de sua festa – naquela época. Como podemos ver, ela coloca sua mãe em companhia de uma santa canonizada; preconceito algum a respeito de seus parentes judeus!
Edith conjuga este seu sentir afirmando claramente: "Minha mãe ficou fiel à sua fé até o fim. Esta fé e a total confiança em seu Deus a acompanharam desde a infância até seu 87º ano de vida, ficaram vivem nela até o fim, mesmo quando lutava contra a morte; por isso estou convencida que ela encontrou um juiz compassivo e ora vai ajudar também a mim para alcançar a meta".
Edith chega até a pensar que a mãe tinha poderes de intercessão: comentando a visita do irmão, de saída para a América, escreve à amiga Hedwig Dulberg: "No dia dos finados lembraremos nossas mães. Este pensamento me dá grande consolo. Acredito que minha mãe tenha o poder de ajudar seus filhos em perigo"(4 de outubro 1938).
Também para seu "querido Mestre", o prof. Edmund Husserl, que estava em fim de vida (1938), Edith se expressa com grande abertura de espírito: " Não estou preocupada com o meu querido Mestre. Nunca pensei que a misericórdia de Deus ficasse restrita aos limites visíveis da Igreja. Deus é a verdade. Quem procura a verdade, procura a Deus, mesmo que disso não seja consciente". Como não admirar estas antecipações proféticas das posições assumidas pela Igreja, partindo do Concílio Vaticano II, em relação ao ecumenismo, e particularmente com os hebreus?
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6 – Edith e a perseguição nazista
No começo dos anos 30 a Alemanha vivia uma grande crise econômica e instabilidade política, enquanto lentamente, mas inexoravelmente subia o partido nacional-socialista de Hitler. Naqueles anos Edith lecionava para as Dominicanas de Spira (1922-1931) e em seguida, no Instituto de Pedagogia de Münster (1932-1933). Contemporaneamente, porém, ela dava palestras públicas, bem apreciadas, sobre problemas da educação e o papel da mulher.
Sempre atenta à história do mundo, e como cristã educada a interpretar os eventos à luz do evangelho, intuiu logo o caráter totalitário e anticristão do movimento nazista:
"Hoje não ha nda que nos falte tanto quanto o batismo no espírito e no fogo... Na grande luta que, mais do que nunca, está sendo travada entre Cristo e Lúcifer, há aquelas que são chamadas por vocação a formar os homens que devem ir para o fronte. Armar-nos para a luta e ficar armadas em permanência: eis o nosso dever mais urgente".
Assim Edith se dirigia a suas ouvidoras. No entanto ela refletia qual fosse seu lugar no fronte.
Edith capta logo o futuro: o nazismo, encarnação do Maligno, inimigo da Cruz, combate Deus mesmo e seu plano salvífico, então não pode não começar pela vontade de destruir o judaísmo, como fundamento da mesma religião cristã, eliminar a "peste judaica-cristã", para instaurar o reino da raça ariana.
Em 1931, se despedindo das alunas de Spira, uma pergunta: "Mas senhorita, você está transtornada!". "Não posso não ficar triste e agitada, quando sei que Hitler logo logo vai arrestar meus parentes e a gente também. O que fazer?"
Na primeira sexta feira de abril 1933: Edith, não era ainda carmelita, na capela do Carmelo de Colônia teve uma profunda experiência espiritual:
"Me dirigia interiormente ao Senhor, dizendo para ele que eu sabia que se tratava mesmo da sua Cruz que estava sendo imposta ao meu povo. A maioria dos hebreus não reconhecia o Senhor, mas aqueles que entendiam, não poderiam escapar da Cruz. É o que desejava fazer. Só perguntei-lhe me mostrar como".
Ela se sentia totalmente comprometida com a sorte do seu povo, assim se questionava como puder fazer algo para o problema dos hebreus . "No fim pensei ir para Roma e pedir ao Santo Padre [Pio XI] uma Encíclica, numa audiência privada". Este projeto não foi possível (segundo seu diretor espiritual, o abade de Beuron, pe. Walzer); então Edith escreve uma carta ao Santo Padre, na qual não se limita em falar dos hebreus, mas também do futuro da Igreja na Alemanha.
"Sei que minha carta lhe foi entregue diretamente e ainda fechada... sempre me perguntei se o teor da minha mensagem tinha, de algum modo, despertado a atenção do Sumo Pontífice. As previsões que eu fazia, a respeito do destino dos católicos na Alemanha, se realizaram pontualmente".
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Segundo o pe, Jan H. Nota, jesuíta holandês, que foi amigo de Edith e depois aprofundou seu pensamento, este passo feito por Edith poderia ter influenciado as posições assumidas por Pio XI contra o nazismo e o anti-semitismo. Em favor de seu povo Edith fez quanto lhe era possível. Mas o Senhor lhe abre novos caminhos de amor heróico para os irmãos hebreus.
Na mesma quaresma de 1933, casualmente hospede de um colega do Instituto de Münster, Edith, que não era conhecida por ele como judia, recebe muitas informações pelos jornais americanos sobre as atrocidades cometidas contra os hebreus alemães. "Já sabia das perseguições... mas naquele momento... vi com clareza... que o destino daquele povo se tornava um com o meu" (10).
Estas experiências de participar do destino do seu povo, de carregar a Cruz de Cristo, preparam Edith ao passo definitivo. Assim ela dizia logo depois: "Não é a atividade humana que pode nos salvar, mas somente a paixão de Cristo. Participar a isso: eis a minha aspiração".
7 – A oferenda: a Esposa do Cordeiro
Uma característica da personalidade de Edith é a plena integração entre o pensamento e o vivido, as analises, as elaborações filosófico-teológicas e a experiência mística; assim compreendemos coma a vida de carmelita represente, para ela, a plena realização de sua vocação como mulher: "A união nupcial da alma com Deus é a finalidade pela qual foi criada: redimida pela Cruz e encontrando seu cumprimento na Cruz, a alma é marcada pela eternidade por meio do sigilo da Cruz".
Em 1931 escrevia sobre a Vocação da mulher; Edith coloca assim seu modo de entender a "esposa de Cristo":
"Ela está de pé ao seu lado, como a Igreja e como a Mãe de Deus... Aí ela está, para ajudar a obra da redenção. O dom total de seu ser e de sua vida a faz entrar na vida e nas fadigas de Cristo, permitindo-lhe compadecer e morrer com ele, daquela terrível morte que foi a fonte da vida para a humanidade inteira, seja tomando parte ativa na conversão das almas, seja alcançando com sua imolação os frutos da graça para aqueles que nunca mais encontrará a nível humano".
Este foi o projeto divino plenamente realizado na vida de Edith: aos 14 de outubro de 1933 ingressa no Carmelo de Colônia: aos 15 de abril de 1934 veste o habito do Carmelo e assume o nome de Teresa Benedita da Cruz, como ela pediu; domingo de Páscoa 1935 é chamada à profissão simples; aos 10 de maio de 1938 emite a profissão solene que a une definitivamente a Cristo.
Com a experiência da Cruz começara o caminho da conversão. No dia do batismo sentiu-se fortemente cativada pela vida carmelita, cujo traço marcante – como ela mesma descreve – "consiste no sofrer com Cristo... unidas ao Senhor... Cristo continua sofrendo neles... intercedendo para os pecadores através um sofrimento livremente aceito e alegre, participando assim da redenção da humanidade."
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No Carmelo, vivendo intensamente esta vocação, poderá dizer: "Agora sei muito mais o que significa ser a esposa do Senhor sob o sinal da Cruz. Está claro que não se pode facilmente compreender porque é um mistério... É aos pés da Cruz que entendi o destino do Povo de Deus que já estava se delineando. Pensei que quem o entende deve tomar sobre de si a Cruz de Cristo para todos".
Quando na famosa Noite dos cristais (8-9 novembro de 1938) desencadeou-se o fanatismo nazista contra as lojas, casas, os mesmos hebreus, as irmãs ficaram estarrecidas, e Ir. Benedita (Edith) exclama: "É a sombra da Cruz que precipita em cima do meu Povo! Ah, se pudesse agora entender!"
"Está aqui o fundamento da teologia steiniana do judaísmo... Edith Stein ama sempre seu Povo, mas o percebe com os olhos e o coração de Cristo. Se dirige a Ele e vê que sua própria Cruz foi colocada nos ombros do Povo judeu. Em outras palavras... a sorte de Cristo com o nacional-socialismo é também aquela dos hebreus. Ambos têm a mesma idêntica missão."
Edith nunca separa o Messias do seu Povo messiânico... O Anticristo (o nazismo) odeia neste Povo sua messianicidade, e assim sua ligação profunda, vital, conatural com Cristo... É à luz do aprofundamento do mistério de Israel sob a Cruz, além do contexto histórico, que precisamos entender seu amor, sua compaixão e também suas críticas: "O grande pecado dos Hebreus, para Edith, se pudermos falar de pecado, é ter negligenciado sua missão e assim trair a própria identidade: povo messiânico, povo do Messias, mas também Povo Messias."
Aos 30 de janeiro de 1939 Hitler decreta e anuncia o aniquilamento da "raça hebraica". Os sinais da iminência do conflito são evidentes. Aos 31 de dezembro Edith se refugia no Carmelo de Echt na Holanda, onde no agosto de ’40 chegará sua irmã Rosa. Nesta situação dramática, Ir. Benedita se aperta cada vez mais ao coração de Jesus " para me tornar tua verdadeira esposa. Prometo-te solenemente: cada vez que precisar fazer uma opção, escolherei o que mais te agrada". Isto é, faz assim o voto dos "mais perfeito".
Algumas semanas depois, pede à superiora de Colônia a autorização " a me oferecer ao Coração de Jesus como vitima expiatória para a verdadeira paz, esperando que o reino do Anticristo desmorone, se possível, sem uma nova guerra mundial, e que seja renovada a ordem no mundo".
No fim escreve um Testamento Espiritual: "Desde já aceito a morte que Deus me destinou e com uma total submissão a sua santíssima vontade. Rezo ao Senhor querer aceitar minha vida e minha morte pela sua glória, para as intenções dos SS. Corações de Jesus e Maria, para aquelas da Igreja. Em particular... em expiação para a recusa da fé por parte do povo hebreu, para que o Senhor seja acolhido pelos seus e venha seu reino na glória; para a salvação da Alemanha e, para a paz no mundo" ( 11).
8 – O holocausto: Edith mártir porque católica e hebréia.
Ir. Benedita não enfrenta temerariamente o martírio. Lembrada das palavras de Jesus (Mt 10,23): "Quando vos perseguirem numa cidade, fugi numa outra", de acordo e por sugestão dos mesmos superiores, procurou acolhida num Carmelo da Suíça, e as práticas estavam indo bem. Mas por causa da convocação em Amsterdã pela Gestapo, deu-se conta que não teriam hesito positivo. Pediu também para a Espanha.
Por enquanto Ir, Benedita está ocupada com o estudo e a contemplação dos escritos de são João da Cruz (por encargo da superiora, em vista de uma publicação para o 4º centenário do nascimento do santo, 1942). "Na conclusão de sua analise do Cântico espiritual... podemos ler todo seu destino, discernir a luz da Cruz pela qual será iluminada a misteriosa noite de seu fim:..."O casamento espiritual da alma com Deus, fim pelo qual a alma foi criada, é comprado pela Cruz, consumado na Cruz e por toda a eternidade marcado com o sigilo da Cruz".
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[pintura de Rudolf Brückner] |
Eis, em síntese, a parte final do drama: o ano 1942 marca o começo das deportações em massa dos hebreus para Leste: campos de trabalho,minas de sal, salas de gás. Diante destes ferozes eventos, os Bispos da Igreja da Holanda, de acordo com a Igreja Reformada, enviam ao Comissário do Reich um longo telegrama de protesta (11 de julho 1942).
Com base neste passo, o Chefe nazista se diz disposto a não mexer com aqueles cristãos de origem hebraica que podem demonstrar sua pertença a uma comunidade cristã antes do 1º de janeiro de 1941.
Os bispos acham totalmente insuficiente esta resposta, porque não tange a questão de fundo, as deportações em massa, e – de acordo com a maioria dos ministros protestantes – mandam ler em todas as igrejas do país (domingo 26 de julho) uma carta pastoral, na qual registrava-se o protesto e o urgente apelo do telegrama. Mais ainda mencionava-se o troca de idéias com o Comissário do Reich, e se concluía com um ardente apelo para a oração em prol de uma justa paz e para o povo hebreu tão duramente provado.
Conclusão? Na manhã do 2 de agosto, o Comissário do reich ordena que todos os religiosos e religiosas não arianos presentes nos conventos holandeses sejam deportados. E na tarde do mesmo 2 de agosto de 1942 a Gestapo vem prender as irmãs Stein. Em poucos minutos as duas irmãs devem deixar o convento. Inúteis todos os protestos da superiora.
A última palavra de Ir. Benedita, deixando o Carmelo é direcionada para a irmã: "Vem, diz-lhe, tomando sua mão – vamos para nosso povo".
Na mesma tarde, o comissário Schmidt deixa uma declaração oficial, segundo a qual, tendo os bispos católicos recusado de respeitar o segredo das negociações, as autoridades alemãs se vêem constrangidas a "perseguir os católicos hebreus, como seus piores inimigos, garantindo o mais cedo possível a deportação para Leste".
Edith foi levada por alguns dias no campo holandês de Westerbork, e depois, aos 7 de agosto, num trem chumbado, com outros hebreus,para Auschwitz. Esses elementos nos dão a certeza que Edith Stein foi presa e deportada porque católica hebréia, e não simplesmente como hebréia, por represália contra a Igreja Católica da Holanda.
Para os hebreus católicos deportados tinha um tratamento – se possível – mais duro ainda, mais do que os outros. Em Auschwitz-Birkenau, chegado o combóio, aos 9 de agosto de 1942, as irmãs Stein entram, com outras deportadas, nos quartos de gás.
Na última carta que, mesmo deportada, conseguiu fazer chegar ao Carmelo de Echt, escrevera: "Pode-se adquirir uma Ciência da Cruz [era o título de seu último libro, inacabado], só se começa a sofrer verdadeiramente o peso da Cruz. Disso tenho a íntima convicção desde o primeiro instante, e do profundo do coração disse: "Salve, ó Cruz, única esperança".
No túnel da morte, o coração de Edith palpita: "A Cruz é toda luz: a madeira da Cruz tornou-se luz do Cristo".
Notas
10. E.De Miribel, Edith Stein, Ed. Paoline, Milano 1987, p.120.
11. J.Bouflet, o.c., pp. 287-288.
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