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Primeiro contato –
Correspondência significativa –
O olhar e o coração do Moscati aos pés da Virgem
Na cabeceira do venerando Idoso – 5 de outubro de 1926: morte de Bartolo Longo
Primeiro contato
João Paulo II, no encerramento da celebração de canonização de José Moscati, antes da oração do Angelus, lembrava, também, as palavras confiadas pelo novo Santo à senhorita Ana Picchillo, que passou quase toda sua vida perto do Santuário de Pompei e por vários anos foi secretária de Bartolo Longo: "Quanta doçura experimento em comungar-me no Santuário de Pompei, aos pés da Virgem parece-me que fico mais pequeno e a Ele [a Jesus] digo as coisas como são".
O Santo adquiriu especial devoção à Rainha do Rosário pelo mesmo Beato Bartolo Longo, que conheceu em Nápoles quando, a família mudou, pela transferência do pai, Francisco, do tribunal de Ancona para o partenopeo, vinha muitas vezes levado ao Instituto fundado pela Ven. Catarina Volpicelli no palácio Petrone alla Salute.
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Aqui o advogado de Latiano – Bartolo Longo – morou por algumas temporadas desde 1872 e freqüentemente voltava, também depois que com a condessa Mariana Fornararo de Fusco se transferiu ao palácio Passero de Largo Salvator Rosa.
A senhora Rosa De Luca e o Comm. Francesco Moscati (pais de S. José Moscati) fraqüentavam a Volpicelli e as pessoas que, sob a direção do Card. Sisto Riario Sforza, se juntavam a ela no apostolado religioso e social, entre os quais os futuros Beatos Ludovico da Casoria e Bartolo Longo, Rosa Carafa, Giulia Salzano e Isabella de Rosis.
Os Moscati quiseram que seu filho José recebesse, aos 8 de dezembro de 1888, a Primeira Eucaristia na capela das Servas do Sagrado Coração. Quando aos 25 de novembro de 1914 a senhora Rosa, mãe do Santo, voou "ao céu com uma morte santa, como sempre foi em sua vida", José quis que fossem celebradas na mesma igreja as exéquias (26 de novembro) e a liturgia do 30º dia,antecipada de alguns dias (22 de dezembro).
Como criança Moscati ficou cativado pelo Bartolo Longo, que tinha 39 anos mais do que ele e, incontrando-o, se animava mais ainda na devoção da Virgem de Pompei e no amor aos pobres e aos doentes, inoculados nele pela mãe e pela irmã Nina, que "tinha como cúmplice no fazer o bem ao próximo".
Após a formatura em Medicina, conseguida aos 4 de agosto de 1903, se tornou médico pessoal de Bartolo Longo até à morte dele, visitou muitas vezes o Santuário por ele fundado, levando consigo algum Assistente para aproximá-lo aos sacramentos, ajudou com freqüentes e generosos óbulos as obras pompeianas e curou sempre de graça os órfãos e os enfermos que Bartolo Longo tinha acolhido.
Estabeleceu-se assim entre Moscati e Bartolo Longo uma estreita relação de amizade e de colaboração apostólica, muitas vezes pela mediação da senhorita Nina, irmã do Santo Médico.
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do Rosário de Pompei |
Correspondência significativa
Tive a oportuniade de publicar algumas cartas trocadas entre os dois; mas agora o historiador Rosario Esposito, junto a um amplo artigo sobre José Moscati e Bartolo Longo, com o título "Eis como um santo cura outro santo", editou a correspondência entre os dois, encontrada no Arquivo de Bartolo Longo.
São 16 cartas do Moscati enviadas a Bartolo Longo e 3 deste transmitidas ao Moscati. Elas nos permitem conhecer melhor o relacionamento entre os dois, tão distantes pela idade, formação e esperiência religiosa, mas intimamente ligados por um desejo de "justiça e caridade" sustentada pela fé.
Esta correspondência – segundo o Esposito – é "extremamente importante" já pela mesma história da arte médica, pois temos na frente um dos grandes da medicina... Mas o aspecto mais importante é – permitam-nos dizer – o pedagógico. A profunda veneração [do Moscati] para o venerando paciente [Bartolo Longo] nunca desaparece.
A amabilidade e a paciência, não isentes de gracinhas, tornam estas mensagens, às vezes tão breves até parecer telegráficas, extraordinariamente queridas... Enfim estas breves páginas constituem o maravilhosos veículo que torna fácil a reconstrução de um panorama religioso e espiritual que faz de moldura a uma grande amizade. Histórias paralelas de gente da ciência e da religião que, de algum modo entram na biografia de um e do outro; e enfim lembranças e perspectivas a propósito da promoção espiritual de se mesmos e das povoações meridionais". (1)
O olhar e o coração de Moscati aos pés da Virgem
O Moscati oferecia sua ajuda sempre gratuitamente, não somente a Bartolo Longo, às irmãs, aos órfãos por elas formados, mas também aos enfermos por eles indicados; assim o fundador do Santuário de Pompei o agradecia pessoalmente ou por meio do próprio secretário João Batista Allaria, enviando-lhe alguns rosários ou publicações como presentes.
Encontramos uma das melhores expressões da devoção do Moscati à Rainha do Rosário numa resposta sempre pontual de agradecimento. Assim ele escrevia aos 20 de julho de 1926:
"O senhor me cativou e honrou muito com sua carta e agradecimentos, que não merecia, pois achei fosse meu dever desgastar-me ao serviço de uma pessoas, recomendada pelo senhor mesmo. E agora lhe agradeço, junto ao senhor Allaria, os magníficos dons recebidos, lembranças da sublime obra de Pompei.
Desde minha infância sinto-me chamado a esta terra, onde a Rainha do Rosário cativou tantos corações e operou tantos prodígios. E queira Ela, Mãe benigna, proteger meu espírito e meu coração dos mil perigos em que navego, neste horrível mundo! Sempre que puder, faço uma visitinha a Pompei – coisa que muitas vezes é impossível por causa de minha atormentada profissão.
Mas sempre que passo fugindo de trem,em vista do Santuário, para ir longe, fazer consultas,coisa muito freqüente, meu olhar e meu coração estão ali, onde entra as árvores se enxerga a torre em construção, aos pés do cibório, sobre o qual se eleva a imagem da Virgem! Perdoe-me, se lhe escrevendo, com o pensamento volto a tantas lembranças queridas... Sempre às suas ordens..."
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Particularmente interessantes são duas cartas de 1925, nas quais se evidencia, o zelo apostólico dos dois amigos, seu respeito para com os outros, sua delicadeza de consciência, o desinteresse pela própria estima e as eventuais incompreensões. Aos 7 de setembro de 1925 Moscati escrevia a Bartolo Longo:
"Anteontem veio consultar o Eng. Gustavo D’Agostino, acompanhado pelo irmão S.E. o Presidente do Conselho do Estado. Ele tem uma doença muito grave (câncer); mas talvez possa sarar com uma oportuna cirurgia. Aliás, acreditamos que um pingo de esperança ainda sobre(isto é, que a doença não seja câncer, e sim granuloma): isso saberemos entre 10-12 dias. [...]
Mas o grande problema è que o Eng. De Agostino não freqüenta os SS. Sacramentos! Ele afirma ser um homem sem pecados! E S.E. D’Agostino acha que cada irmão deve pensar a si mesmo, e não pode pensar ao outro. Com doçura repreendi o engenheiro, mostrando minha surpresa em saber que ele pertence ao entourage do Bartolo Longo... Como abandonar aquela alma com os perigos que enfrenta? Estou certo que ele terá sua vida humana salva; mas é um grande aviso que ele recebeu; e o senhor sabe que estas doenças, mesmo saradas, se reproduzem com facilidade,coisa que impediremos com uma terapia de raio X, após a cirurgia. Mas eu quis lhe escrever, porque a S. Virgem de Pompei ganhe para sim esta alma boa, mas morna".
Bartolo Longo agradeceu o Moscati, mas tendo esquecido, lhe escreveu outra vez pedindo-lhe conselhos para a própria saúde e talvez manifestando alguma perplexidade a respeito a frases atribuídas ao Moscati. Então este lhe respondeu com um bilhete sem data:
"Amanhã chegarei a Vale (de Pompei), irei na igreja e receberei a S. Eucaristia, e depois virei vos ver; quero lhe declarar que para o senhor deixaria tudo, colocando-o em primeiro lugar entre os outros... Vos escrevi a respeito do Sr. D’Agostino: este foi para Paris. O senhor me respondeu; agradecendo-lhe, eu tinha dado notícias dele, livre de ligações dos preceitos da S. Igreja. Eu não soube interpretar a frase. E lhe asseguro que não revelei um segredo de confissão rogando-lhe de fazer de tudo, para reaproximar aquele bom Sr. D’Agostino, pessoa excelente, aos SS. Sacramentos, porque minado por um mal inexorável.
Na cabeceira do venerando Idoso
Mais freqüente foi o intercâmbio epistolar, durante a última doença de Bartolo Longo. Aos 24 de maio de 1926 o ilustre médico traçava o endereço terapêutico a ser adotado. Aos 29 do mesmo mês escrevia ao amigo:
"Eu creio ter traçado trilhos dos quais... não pode descarrilhar! Ou seja, economia de remédios e não mudar os hábitos quanto mais possível. A nós acostumados à água do Aosino e do Serino, é bom não trocar o tipo de água potável. Siga estes poucos preceitos. Foi bom receber os Santos Óleos, não porque o Senhor vos queira consigo, porque ainda não chegou sua hora, mas porque o senhor se conformou ao conselho da Carta de S. Tiago (4,14-15), que na insistência de uma doença, ordenava a unção, come remédio da alma e do corpo também."
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num quadro de Ciro Adrian Diavolino, no Santuário de Pompei. |
Moscati, que não era teólogo, mas um crente constante com a leitura da Sagrada Escritura, compreendeu bem e praticou como o Cristianismo, inculcando a resignação na doença, não dispensa uma justa e devida luta contra tudo que impede a vida, a saúde e seus bens.
Aos 12 de abril de 1926 Moscati, contente pelas boas notícias recebidas a respeito da saúde de Bartolo Longo, pede novas informações sobre a doença ulcus rodens, em vista de uma eventualmente mais cumprida aplicação de radium, da qual garante a ausência de incômodo e aproveita da oportunidade para elevar um hino ao Criador:
"Elevemos a mente a Deus, que admitiu o homem ao seu conhecimento; e permitiu que os homens pudessem gozar por um pouco de tempo de seus dons terrenos, mas que também os empolgou a desapegar-se deles, porque muito mais Ele nos dará numa vida melhor. O Radium é uma das coisas admiráveis de Deus,conhecida nestes últimos anos (e quantas outras ainda desconhecidas!). Se for necessário, usaremos ainda mais o Radium".
Temos aqui o cientista contemplativo que convida o jurista Longo, animado de mesma fé, a elevar o pensamento ao Criador, que colocou o universo, com toda sua imensa variedade e beleza, à disposição do homem, para que possa delas usufruir, sem esquecer a caducidade.
Queria o Moscati preparar Bartolo Longo à morte, que teria acontecido só depois de poucos meses? A idade avançada e a enfermidade crônica o fazia de algum modo prever. Mas quem poderia pensar que a distância de um só ano da data desta carta Moscati, com 47 anos, seria improvisamente passado a "vida melhor" indicada ao amigo?
Ele estava sempre pronto e se acostumou a partir de cada criatura, especialmente das flores, que sua irmã Nina colocava sempre "no escritório, no estúdio, nas salas e no quarto de almoço", chegar à beleza e grandeza de Deus e não se esquecer da caducidade das coisas e da fugacidade da vida.
5 de outubro 1926: morte de Bartolo Longo
Aos 7 de maio de 1926 Moscati escreve uma carta ao amigo:
"O senhor foi o arauto da SS. Virgem e deve, ficando ainda muito tempo à sombra do Santuário, ser testemunha de muitíssimas graças e dos triunfos do Terço. Eu vos sinto presente, e no mar de vínculos em que vivo, vos penso e... consciente de ser um grande pecador, rezo a Deus para o senhor. Mas minhas rezas, mesmo que sejam como os gazes que descem sobre a terra, e não alcança o Céu, são inspiradas à boa vontade.
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Então viva bem e muito, e diga como S. Martinho já idosos entre seus monges orantes: non recuso laborem. E S. Martinho ficou sim sofrendo, na terra, mas também consolando com sua presença seus irmãos, seus filhos em Cristo, estimulando-os no trabalhos da Vinha do Senhor.
Bartolo Longo logo respondeu:
"Recebi sua carinhosa carta na manhã do dia 8 de maio. Suas palavras são um grande conforto para meus sofrimentos e, cheio de reconhecimento invoquei na hora da Súplica e invoco cada dia sobre o senhor a bênção e a proteção de nossa Virgem de Pompei. Aceito o augúrio e como S. Martinho repito: non recuso laborem. Mas preciso da s forças. O esgotamento me impede de falar, de ouvir falar e de pensar.
O venerável Ancião, talvez enfraquecido pelo calor, recusa quase totalmente o alimento. Moscati o encoraja alegando uma altíssima motivação apostólica:
"Fico muito feliz em vos ouvir bom! Mas eu não posso aprovar vossa determinação de se privar do alimento! Se alimente, entendo, mesmo com os limites; ma se alimente! ... O Senhor e a Sma. Virgem vos conservem muito tempo sobre esta terra, que de verdade se tornou um covil de feras e uma espelunca de ladrões. Sacrifiquemo-nos, e eu primeiro, que mereço mais do que os outros ser incluído entre as feras, para que triunfem os princípios cristãos no mundo, e somente para isso devemos pedir de viver".
Os poucos trechos da correspondência entre josé Moscati e Bartolo Longo são tão significativos que convidam a ler todas as cartas. Na tarde do dia 3 de outubro às 22.00 hs, Moscati visita pela última vez o seu amigo enfermo e, após ter constatado uma pneumonia dupla, saindo em lágrimas, exclamou: "Não há mais nada a fazer! O Sr. Bartolo nos deixará daqui a poucos dias".
Bartolo Longo morreu aos 5 de outubro de 1926. Mas logo após seis meses, aos 12 de abril de 1927, seu amigo José Moscati, derrubado por um ataque cardíaco, o alcançava no Céu.
O clínico Moscati e o advogado Longo, no seu tempo, além de serem amigos, foram um pólo da atração para crentes e incrédulos, cientistas, profissionais, categorias de cada extradição social, mas sobretudo para pobres, enfermos e miseráveis. Hoje em dia sua mensagem conserva toda sua eficácia e vivacidade, porque provém da única fonte perene, Cristo, e responde de cheio a todas as atuais exigências socioculturais.
Nota
1. Rosario Esposito, Come un Santo cura un altro Santo, in Palestra del Clero, n.69, 1990, pp.966-967.
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