As Congregações Marianas

Vito Nunziante

A chama de amor à Virgem Santa que o giovem jesuíta pe. Jean Leunis acendeu em Roma no dia 25 de março de 1563 ainda não se apagou e segue, mais viva que nunca, a brilhar nos diversos continentes do mundo. O início deu-se na igreja da Anunciação, junto ao Colégio Romano, enquanto o jovem missionário de Liege esperava ser enviado às missões.

Padre Sacchini, historiador da Comapnhia de Jesus, fala daqueles primórdios com estas palavras: "... assim, pois, aqueles que desejavam unir a piedade ao estudo das Letras, começaram a se reunir todos os dias numa sala onde enfeitavam um altarzinho. Ali, algumas vezes rezavam juntos e faziam uma piedosa leitura para ser ouvida por todos. Ao domingo e dias santos, segundo o costume da Igreja, oravam e cantavam. Destes pobres inícios tiveram começo as Congregações Marianas mais tarde dedicadas ao culto da Santíssima Virgem que, orientadas e dirigidas por sábias normas, se espalharam por toda a terra, fazendo bem não somente aos jovens mas também às outras pessoas".

Com a autorização pontifícia, pe. Cláudio Acquaviva, Geral da Comapnhia de Jesus, estabeleceu oficialmente as Regras a serem seguidas em 1º de novembro de 1587. Pelos frutos apostólicos colhidos n as visita aos hospitais, às cadeias e nos ambientes mais pobres da cidade, em breve tornaram-se conhecidas não só nas escolas dos jesuítas, mas, também, na hierarquia eclesiástica.

Papa Gregório XIII, aos 5 de dezembro de 1584, com a Bula "Onipotentis Dei" reconhecia oficialmente aquela congregação nomeando-a "Prima Congregatio seu Primarium Sodalitium" obrigando todas as outras congregações existentes nas casas jesuítas, não só de estudantes mas de todo o tipo de pessoas a submeter-se a ela para ter parte nos benefícios concedidos pela Igreja.

Devido à dedicação dos primeiros jesuítas às escolas de jovens, as primeiras Congregações foram masculinas. Só em 1750 encontramos na Sicília, na Alemanha e no Peru, as primeiras congregações femininas. Como instrumento de evangelização e seguindo o espírito de Cristo, "sinal de contradição" também elas foram objeto de perseguição. De fato, na França, depois da morte do Rei Luís XIV que as tinha em grande apreço, o Regente que lhe sucedeu proibiu as Congregações Marianas aos 19 de julho de 1716.

Mesmo pressentindo a perseguição que pretejava por toda parte através das nuvens da maçonaria e do anticlericalismo, a Igreja não deixava de reconhece-las como autêntico instrumento de santificação com a Bula "Gloriosae Dominae" do Papa Bento XIV conhecida como "Bula Áurea", no dia 27 de setembro de 1748.

Quando a tempestade desabou sobre os jesuítas atingiu em cheio também as Congregações Marianas que dependiam diretamente do Geral da Companhia de Jesus quanto à autorização, aceitação e o reconhecimento de novas congregações.

A supressão das Congregações Marianas que deveria ter seguido aquela da Companhia de Jesus, não aconteceu de todo graças à intervenção do Papa Clemente XIV que, através de seu Breve "Commendatissimam" do dia 14 de novembro de 1773, concedeu a 3 cardeais a incumbência de dirigir o Colégio Romano e a Congregação Mariana reconhecida como a "Prima Primaria" das congregações do mundo.

Por sua vez, o sucessor Papa Pio VI, em 2 de maio de 1775, concede ao seu Cardeal Vigário e aos sucessores deste, a incumbência de assinar os diplomas dos novos congregados. Tal faculdade, mais tarde, foi concedida aos diretores da própria congregação.

O mundo, no entanto, não foi unânime na aceitação da eliminação dos jesuítas e das Congregações Marianas. Exemplo típico foi aquele de Catarina II que manteve na Rússia seja os jesuítas bem como as Congregações Marianas.

Papa Pio VII, antes de restabelescer a Companhia de Jesus, agregou à Prima Primária a Congregação Mariana da Anunciação de Polocz (Polônia) e uma outra congregação de Petersburgo.

Papa Leão XII, aos 7 de março de 1825, concede ao Geral dos Jesuítas o poder de reconhecer e agregar, portanto, à Prima Primária também as congregações fundadas canonicamente fora das casas jesuítas e totalmente independentes, sempre com a autorização da autoridade diocesana.

Assim como acontece com a primavera que, passado o inverno, faz desabrochar o verde e as flores mais lindas, após a dolorosa provação, as congregações multiplicaram-se por toda parte e, com elas, os grandes frutos de santidade reconhecidos pela Igreja como, por exemplo: Santo Estanislao Kostka, São Luiz Gonzaga, o mexicano São Felipe de Jesus, São João Berchmans, Santa Bartolomea Capitânio, Santa Terezinha do Menino Jesus, Piergiorgio Frassati e muitos outros que o reduzido espaço de um simples artigo não nos permite enumerar. Os mais recentes são Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II que em sua juventude fundou e foi primeiro presidente de uma Congregação Mariana nos anos de seminarista.

Papa Pio XII em 27 de setembro de 1948, com a Constitução Apostólica "Bis saecularis" em comemoração do bicentenário da "Gloriosae Dominae" do predecessor Bento XIV, reafirma os previlégios e as regras das Congregações Marianas declarando-as verdadeiras Ação Católica. O documento de Papa Pacelli é reconhecido como a Carta Magna das Congregações.

No dia 9 de setembro de 1954, declarado Ano Santo Mariano por Pio XII, enquanto no mundo contavam-se 81.000 congregações fundadas em 115 países de todos os continentes e nas 1.291 Dioceses, contavam-se 6 milhões de congregados, em Roma fundava-se a Federação Mundial das Congregações Marianas.

Treze anos depois, a mesma Federação, ao término do Concílio Vaticano II, propunha à Santa Sé a troca do nome de Congregação Mariana para Comunidade de Vida Cristã adotando a sigla CVX e, ao mesmo tempo, o uso de novas Regras e Princípios. A Santa Sé aceitou aquela proposta no ano de 1971. Tal acontecimento serviu como divisor de águas no movimento Mariano.

Nem todas as Congregações e congregados do mundo aceitaram aquela mudança e isto permitiu a ruptura do movimento dirigido pelos jesuítas: a CVX. Muitos não quiseram abandonar o nome que lembrava diretamente Maria Santíssima e os Seus devotos. O Brasil foi uma das nações que preferiu manter o nome de Congregação Mariana. O brasileiro tem em grande apreço Maria, a Mãe do Senhor desde o tempo do descobrimento e alimentado pela ação apostólica e missionária dos franciscanos, primeiro, e pelos jesuítas, depois. Por isso lhes conserva o nome e assim as difunde.

A saída oficial do vínculo direto e da assistência constante dos jesuítas foi muito sentida entre os congregados Marianos do mundo em que tiveram de mudar a denominação.

Agora as Congregações estão restritas às Dioceses e submetidas à autoridade episcopal sem perder o liame com a Federação Mundial das CVX. Esta Federação, por sua vez, reconheceu e admitiu. Em maio de 1988, as Congregações Marianas do Brasil como sua representante naquela nação. Assim como se deu no Brasil, outras nações seguiram como antes. Entre estas lembramos o Líbano e o México.

O Brasil, de onde escrevo, realiza todos os anos no Santuário-Basílica de Nossa Senhora Aparecida de São Paulo, as suas Assembléias Gerais e, em 1991, fundou a "Confederação Nacional das Congregações Marianas que reúne todas as Federações Diocesanas da Nação.

Na Assembléia do dia 7 de novembro de 1992 redigiu suas próprias regras denominadas Regras de Vida que, submetidas ao presidente Mundial das CVX de ent~~ao em Roma, Brendan Mc Loughlin, foram reconhecidas e aprovadas admitindo a Confederação das Congregações Marianas do Brasil como Membro Associado segundo as Normas Gerais nº 12 dos Princípios Gerais da Comunidade de Vida Cristã.

Atualmente as Congregações Marianas do Brasil, após a aprovação das Regras de Vida, por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 25 de novembro de 1993 com o Decreto nº 7/93, está inscrita no Conselho Mundial dos Leigos Católicos.

As Congregações Marianas por nós conhecidas, agora são paroquiais e submetidas à autoridade diocesana. Havendo pelo menos três congregações numa Diocese estas podem formar uma Federação. Num mesmo estado, havendo mais Federações, estas formam uma Coordenação estadual. A união de todas as coordenações ou Federações integram a Confederação Nacional das Congregações Marianas do Brasil.

Hoje em dia a Confederação Nacional tem como Assistente Eclesiástico Dom Damasceno, Cardial-Arcebispo de Aparecida e Vice-Assistente o Bispo emérito de Petrópolis, Dom José Carlos de Lima Vaz, um jesuíta.

As Congregações Marianas reúnem seus membros uma ou duas vezes por mês a fim de estudar a vida apostólica de Maria Santíssima, procurar de imita-La em tudo e para se ajudar a viver sempre mais intensamente a consagração feita à Mãe de Deus, segundo a fórmula elaborada por um grande congregado Mariano: São Francisco de Sales.

Esta vida de emulação e de exemplo cristão é reconhecida por todos como "uma escola de santidade". A Federação das Congregações Marianas do Rio de Janeiro(RJ) com o intuito de não perder a identidade inicial da espiritualidade inaciana, realiza Retiros Espirituais, sempre que for possível, com a assistência e pregação de um padre jesuíta.

Sempre visando a propagação da devoção à Maria, várias Congregações Marianas fundaram no orkut da Google comunidade com o nome da própria congregação. Também no orkut, tendo em vista que a modernidade nos obriga a fazer uso de tudo para não perder a identidade missionária das Congregações Marianas, foi fundada uma Congregação Mariana virtual-itinerante em 25 de março de 2006, enquanto se comemorava o 443º aniversário da primeira congregação a Angelus Domini com a intenção de permitir a reunião permanente na Internet e programar um encontro real, mensal ou periódico, numa congregação paroquial que tenha pelo menos um de seus membros nela inscrito.

Esta congregação permite que todos os congregados permaneçam sempre unidos e participantes. Admite uma única exigência: ser consagrados numa congregação regular ou ter o desejo de se consagrar numa congregação regular após uma devida preparação. As Congregações no mundo seguem, como sempre, o lema inicial: "Ad Jesum per Mariam – chegar a Jesus por meio de Maria".

Pensando em Maria Santíssima e procurando reproduzi-La em sua própria vida e nas suas obras, a saudação entre os Marianos é a mesma que usarei em minha despedida: Salve, Maria!


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